quarta-feira, 28 de agosto de 2013

MARCELO,MARMELO, MARTELO






MARCELO VIVIA FAZENDO PERGUNTAS A TODO MUNDO: — PAPAI, POR QUE É QUE A CHUVA CAI? — MAMÃE, POR QUE É QUE O MAR NÃO DERRAMA? — VOVÓ, POR QUE É QUE O CACHORRO TEM QUATRO PERNAS? AS PESSOAS GRANDES ÀS VEZES RESPONDIAM. ÀS VEZES, NÃO SABIAM COMO RESPONDER. — AH, MARCELO, SEI LÁ...
UMA VEZ, MARCELO CISMOU COM O NOME DAS COISAS: — MAMÃE, POR QUE É QUE EU ME CHAMO MARCELO? — ORA, MARCELO FOI O NOME QUE EU E SEU PAI ESCOLHEMOS. — E POR QUE É QUE NÃO ESCOLHERAM MARTELO? — AH, MEU FILHO, MARTELO NÃO É NOME DE GENTE! É NOME DE FERRAMENTA... — POR QUE É QUE NÃO ESCOLHERAM MARMELO? — PORQUE MARMELO É NOME DE FRUTA, MENINO! — E A FRUTA NÃO PODIA CHAMAR MARCELO, E EU CHAMAR MARMELO?
 NO DIA SEGUINTE, LÁ VINHA ELE OUTRA VEZ: — PAPAI, POR QUE É QUE MESA CHAMA MESA? — AH, MARCELO, VEM DO LATIM. — PUXA, PAPAI, DO LATIM? E LATIM É LÍNGUA DE CACHORRO? — NÃO, MARCELO, LATIM É UMA LÍNGUA MUITO ANTIGA. — E POR QUE É QUE ESSE TAL DE LATIM NÃO BOTOU NA MESA NOME DE CADEIRA, NA CADEIRA NOME DE PAREDE, E NA PAREDE NOME DE BACALHAU? — AI, MEU DEUS, ESTE MENINO ME DEIXA LOUCO!
 DAÍ A ALGUNS DIAS, MARCELO ESTAVA JOGANDO FUTEBOL COM O PAI: — SABE, PAPAI, EU ACHO QUE O TAL DE LATIM BOTOU NOME ERRADO NAS COISAS. POR EXEMPLO: POR QUE É QUE BOLA CHAMA BOLA?
 — NÃO SEI, MARCELO, ACHO QUE BOLA LEMBRA UMA COISA REDONDA, NÃO LEMBRA? — LEMBRA, SIM, MAS... E BOLO? — BOLO TAMBÉM É REDONDO, NÃO É? — AH, ESSA NÃO! MAMÃE VIVE FAZENDO BOLO QUADRADO... O PAI DE MARCELO FICOU ATRAPALHADO.
 E MARCELO CONTINUOU PENSANDO: "POIS É, ESTÁ TUDO ERRADO! BOLA É BOLA, PORQUE É REDONDA. MAS BOLO NEM SEMPRE É REDONDO. E POR QUE SERÁ QUE A BOLA NÃO É A MULHER DO BOLO? E BULE? E BELO? E BALA? EU ACHO QUE AS COISAS DEVIAM TER NOME MAIS APROPRIADO. CADEIRA, POR EXEMPLO. DEVIA CHAMAR SENTADOR, NÃO CADEIRA, QUE NÃO QUER DIZER NADA. E TRAVESSEIRO? DEVIA CHAMAR CABECEIRO, LÓGICO! TAMBÉM, AGORA, EU SÓ VOU FALAR ASSIM".
 LOGO DE MANHÃ, MARCELO COMEÇOU A FALAR SUA NOVA LÍNGUA: — MAMÃE, QUER ME PASSAR O MEXEDOR? — MEXEDOR? QUE É ISSO? — MEXEDORZINHO, DE MEXER CAFÉ. — AH... COLHERINHA, VOCÊ QUER DIZER. — PAPAI, ME DÁ O SUCO DE VACA? — QUE É ISSO, MENINO! — SUCO DE VACA, ORA! QUE ESTÁ NO SUCO-DA-VAQUEIRA. — ISSO É LEITE, MARCELO. QUEM É QUE ENTENDE ESTE MENINO?
 O PAI DE MARCELO RESOLVEU CONVERSAR COM ELE: — MARCELO, TODAS AS COISAS TÊM UM NOME. E TODO MUNDO TEM QUE CHAMAR PELO MESMO NOME PORQUE, SENÃO, NINGUÉM SE ENTENDE... — NÃO ACHO, PAPAI. POR QUE É QUE EU NÃO POSSO INVENTAR O NOME DAS COISAS? — DEIXE DE DIZER BOBAGENS, MENINO! QUE COISA MAIS FEIA! — ESTÁ VENDO COMO VOCÊ ENTENDEU, PAPAI? COMO É QUE VOCÊ SABE QUE EU DISSE UM NOME FEIO? O PAI DE MARCELO SUSPIROU: — VÁ BRINCAR, FILHO, TENHO MUITO QUE FAZER...
 MAS MARCELO CONTINUAVA NÃO ENTENDENDO A HISTÓRIA DOS NOMES. E RESOLVEU CONTINUAR A FALAR, À SUA MODA. CHEGAVA EM CASA E DIZIA: — BOM SOLÁRIO PRA TODOS... O PAI E A MÃE DE MARCELO SE OLHAVAM E NÃO DIZIAM NADA. E MARCELO CONTINUAVA INVENTANDO: — SABEM O QUE EU VI NA RUA? UM PUXADEIRO PUXANDO UMA CARREGADEIRA. DEPOIS, O PUXADEIRO FUGIU E O POSSUIDOR FICOU DANADO.
 A MÃE DE MARCELO JÁ ESTAVA FICANDO PREOCUPADA. CONVERSOU COM O PAI: — SABE, JOÃO, EU ESTOU MUITO PREOCUPADA COM O MARCELO, COM ESSA MANIA DE INVENTAR NOMES PARA AS COISAS... VOCÊ JÁ PENSOU, QUANDO COMEÇAREM AS AULAS? ESSE MENINO VAI DAR TRABALHO... — QUE NADA, LAURA! ISSO É UMA FASE QUE PASSA. COISA DE CRIAN- ÇA...
 MAS ESTAVA CUSTANDO A PASSAR... QUANDO VINHAM VISITAS, ERA UM CASO SÉRIO. MARCELO SÓ CUMPRIMENTAVA DIZENDO: — BOM SOLÁRIO, BOM LUNÁRIO... — QUE ERA COMO ELE CHAMAVA O DIA E A NOITE. E OS PAIS DE MARCELO MORRIAM DE VERGONHA DAS VISITAS.
 ATÉ QUE UM DIA... O CACHORRO DO MARCELO, O GODOFREDO, TINHA UMA LINDA CASINHA DE MADEIRA QUE SEU JOÃO TINHA FEITO PARA ELE. E MARCELO SÓ CHAMAVA A CASINHA DE MORADEIRA, E O CACHORRO DE LATILDO. E ACONTECEU QUE A CASA DO GODOFREDO PEGOU FOGO. ALGUÉM JOGOU UMA PONTA DE CIGARRO PELA GRADE, E FOI AQUELE DESASTRE!
 MARCELO ENTROU EM CASA CORRENDO: — PAPAI, PAPAI, EMBRASOU A MORADEIRA DO LATILDO! — O QUÊ, MENINO? NÃO ESTOU ENTENDENDO NADA! — A MORADEIRA, PAPAI, EMBRASOU... — EU NÃO SEI O QUE É ISSO, MARCELO. FALA DIREITO! — EMBRASOU TUDO, PAPAI, ESTÁ UMA BRANQUEIRA DANADA! SEU JOÃO PERCEBIA A AFLIÇÃO DO FILHO, MAS NÃO ENTENDIA NADA...
 QUANDO SEU JOÃO CHEGOU A ENTENDER DO QUE MARCELO ESTAVA FALANDO, JÁ ERA TARDE. A CASINHA ESTAVA TODA QUEIMADA. ERA UM MONTÃO DE BRASAS. O GODOFREDO GANIA BAIXINHO... E MARCELO, DESAPONTADÍSSIMO, DISSE PARA O PAI: — GENTE GRANDE NÃO ENTENDE NADA DE NADA, MESMO!
 ENTÃO A MÃE DO MARCELO OLHOU PRO PAI DO MARCELO. E O PAI DO MARCELO OLHOU PRA MÃE DO MARCELO. E O PAI DO MARCELO FALOU: — NÃO FIQUE TRISTE, MEU FILHO. A GENTE FAZ UMA MORADEIRA NOVA PRO LATILDO. E A MÃE DO MARCELO DISSE: — É SIM! TODA BRANQUINHA, COM A ENTRADEIRA NA FRENTE E UM COBRIDOR BEM VERMELHINHO...

 E AGORA, NAQUELA FAMÍLIA, TODO MUNDO SE ENTENDE MUITO BEM. O PAI E A MÃE DO MARCELO NÃO APRENDERAM A FALAR COMO ELE, MAS FAZEM FORÇA PRA ENTENDER O QUE ELE FALA. E NEM ESTÃO SE INCOMODANDO COM O QUE AS VISITAS PENSAM...

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